sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

em busca dos sonhos perdidos

Ele que um dia foi,
hoje não é mais...
Seus olhos que tanto brilharam em outrora,
hoje ofuscados estão com a escuridão da noite.
Noite à dentro ele vai,
vai procurar respostas em sua boa e velha
companheira, a lua.
...Que ainda hoje insiste em se esconder.
São Paulo, 30 de janeiro de 2010
1h16, o homem precisa deitar,
tomado por um rompante,
concluiu que sonhará novamente,
só não sabe se daqui 1 hora
...ou 80 anos.

Referência

"Meu pai não deixava minha mãe sair sozinha, por isso ela sempre me levava junto quando se encontrava com Armando. No caminho, ela me comprava uma revistinha do Mickey e balas.

Ela me levava até uma sala que parecia a sala de espera de um consultório médico. Dizia sorrindo que eu podia me deitar no sofá, ler ou dormir, que o apartamento era muito lindo, não?, que Armando ficava muito contente de eu estar ali, que eles precisavam discutir algo importante, mas que não iria demorar. Os olhos dela brilhavam como cebolas em conserva.

Enquanto esperava, eu furava os olhos do Mickey em todas as páginas.

Quando terminava, ficava de um lado para o outro na sala.

Comia todas as balas.
O coração batia na minha cabeça.
Lá fora, escurecia.
Dentro da sala, começava a nevar.
O sofá congelava.
As paredes congelavam.
Meus pés e minhas mãos congelavam.


Meus olhos.

A neve me cobria."


Aglaja Veteranyi em "Por que a criança cozinha na polenta"

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

onde estão as palavras?

Moça, preciso lhe dizer,
mas não sei com quais palavras,
referências, quais?
Com quais versos?
Estrofes
...Cifras e acordes?
Preciso lhe dizer do bem que você me faz
...E da angústia que você trás
quando longe está.
Sílaba por sílaba preciso tentar lhe dizer
moça
Sobre o poder do teu olhar,
quão enfeitiçado, hipnotizado
...descontrolado fico eu.
Tem algo em seus olhos que a gramática ainda não soube inventar a palavra,
a mesma palavra que me falta pra descrever
o chão que sai dos meus pés, quando sustentado fica seu cheiro no ar.
Preciso lhe dizer, minha moça...
Da sensação que tenho quando tua pele
Entranha-se na minha
Cadê? Cadê? Cadê?
...as palavras correm,
como se ao efeito de um alucinógeno
estivesse eu lendo um livro.
Inquieto.
Preciso lhe dizer moça,
que minha alma voa por entre os continentes
quando meu corpo ao seu lado está;
Que trocados ficam meus órgãos vitais
por inúmeros corações,
que dentro do meu corpo batem aceleradamente,
aceleradamente batem corações dentro do meu corpo,
quando sua boca vem ao encontro da minha.
Mas não são essas as palavras.
Boas metáforas? Talvez...
Tem quem diga que uma das palavras seria:
Amor...
Mas buscando uma das minhas referências,
que se segue na voz de Joanna:
“ninguém morre de amor”.


...Mas lhe digo uma coisa, moça
...Minha menina,
Ou minha referência errada está,
ou a palavra não é amor,
pois,
moça, preciso lhe dizer:
Na ausência desse “amor” morreria após poucos segundos de vida.
E na ausência dessas palavras, estou como Kavafis
...À espera dos Bárbaros.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Ruína

"Um monge descabelado me disse no caminho: eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha idéia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado pro arcaíco ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.)

Continuou: a palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como um lírio pode nascer de um montouro*.

E o monge se calou descabelado"

por Manoel de Barros

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

"sol"

O sol voltou a brilhar na cidade grande,
na petrificada cidade...
na cidade que deveria ter como codinome: insônia
e solidão como pseudônimo.
Sol em vão.
Tirando por algum espaço de tempo as nuvens escuras,
voltando a brilhar em cima do cinza
do inacabado
Talvez não dure muito, é fato.
Sejamos realistas.
É fato: não vai durar parcas horas
Logo mais se finda o aquecimento da alma.
Mas, enquanto o sol brilha na insônia,
comemoremos o aquecimento do cinza!
O calor da solidão,
comemoremos juntos!

...

"Minha alma, de sonhar-te, anda perdida. Meus olhos andam cegos de te ver! Não és sequer razão do meu viver, pois que és já toda a minha vida!"
Florbela Espanca

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

convivendo com o frio

Está nevando dentro do meu quarto
neve
frio
congela
paralisa...Deixa tremulo.
Minhas mãos, nunca tão brancas,
nunca tão abertas,
deixam escorrer por entre os dedos
o vazio.
Alguns nomes, cenas, fantasias
lugares, nomes,fantasias e cenas
ecoam na minha cabeça,
não há música que me faça parar de escutar ecos
não há cobertores que me façam parar se sentir frio
não há absolutamente nada no mundo
não há absolutamente nada no mundo
não há absolutamente nada no mundo
não há absolutamente nada no mundo
que preencha o vazio,
o aroma da água petrificada que aqui se instaurou.
Dentro do meu quarto está nevando...